GLP-1: benefícios além do controle de diabetes
Atualizado em: 23/06/2026
Quando o médico indica um medicamento da classe GLP-1, o objetivo mais imediato costuma ser controlar o açúcar no sangue. Mas ao longo dos anos, pesquisadores foram descobrindo algo além disso: esses medicamentos também podem ajudar no controle do peso e cuidar do coração, dos rins e do fígado.
E o mais surpreendente: alguns desses benefícios foram comprovados em pessoas que não têm diabetes. Estudos publicados nas revistas médicas mais respeitadas do mundo, como New England Journal of Medicine, The Lancet e bases como PubMed e SciELO, confirmaram esses efeitos.
O que são os medicamentos GLP-1?
GLP-1 é um hormônio produzido naturalmente pelo intestino após as refeições. Ele ajuda o organismo a regular os níveis de açúcar no sangue, sinalizando ao pâncreas que é hora de liberar insulina. Os medicamentos da classe GLP-1 reproduzem essa ação natural, mas permanecem ativos por mais tempo, potencializando seus efeitos no organismo.
Como os GLP-1 controlam o açúcar no sangue e por que o risco de hipoglicemia é menor?
A maioria dos medicamentos para diabetes atua de forma contínua, reduzindo os níveis de açúcar no sangue ao longo de todo o dia. Os GLP-1 são mais seletivos: eles só estimulam o pâncreas a produzir insulina quando o açúcar está elevado, como depois de uma refeição. Quando o açúcar já está normal, esse estímulo diminui sozinho.
Na prática, isso reduz bastante o risco de hipoglicemia e o controle fica mais parecido com o funcionamento natural do corpo.
Com o tempo, esse controle mais eficiente aparece nos exames. A hemoglobina glicada, exame que mostra a média dos níveis de açúcar no sangue ao longo dos últimos dois a três meses, tende a apresentar uma melhora consistente. E cada melhora nesse exame significa menos risco de complicações como problemas de visão, danos nos rins e alterações nos nervos.
GLP-1 e saúde do coração: a proteção vai além de quem tem diabetes
Esse é o benefício com mais evidências acumuladas. Em pessoas com diabetes, estudos mostraram reduções expressivas no risco de infarto, AVC e morte por causas cardíacas em comparação com quem não usou o medicamento.
O que mostrou o estudo SUSTAIN-6
O estudo SUSTAIN-6, publicado no New England Journal of Medicine em 2016, foi um dos primeiros grandes ensaios a demonstrar esse benefício. Ele acompanhou 3.297 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular. Quem usou semaglutida teve 26% menos infartos, AVCs e mortes por causas cardíacas do que quem tomou placebo ao longo de pouco mais de dois anos.
O que mostrou o estudo SELECT
Em 2023, o estudo SELECT testou semaglutida em mais de 17.000 pessoas com obesidade, mas sem diabetes, e o resultado foi uma redução de 20% nos mesmos eventos. Uma análise posterior mostrou que esse benefício cardíaco acontece mesmo em quem perde pouco peso durante o tratamento. Ou seja, o coração se beneficia por razões que vão além da balança.
Por que isso acontece?
Os GLP-1 atuam em quatro frentes que afetam diretamente a saúde do coração:
- Menos inflamação no organismo: a inflamação crônica pode danificar os vasos sanguíneos ao longo do tempo. Os GLP-1 ajudam a reduzir esse processo, favorecendo a saúde cardiovascular.
- Pressão arterial mais controlada: pesquisas indicam que esses medicamentos podem contribuir para a redução da pressão arterial, um dos principais fatores de risco para doenças do coração.
- Redução da gordura abdominal profunda: os GLP-1 ajudam a diminuir a gordura que se acumula ao redor dos órgãos internos e está associada a um maior risco cardiovascular.
- Melhora dos níveis de colesterol e triglicerídeos: os estudos também apontam benefícios no perfil lipídico, contribuindo para a proteção das artérias.
GLP-1 protege os rins de quem tem diabetes?
Sim. Os rins são um dos órgãos mais afetados pelo diabetes. Com o tempo, o excesso de açúcar no sangue vai danificando os vasos responsáveis pela filtragem do sangue. Isso pode evoluir para insuficiência renal e, nos casos mais graves, para a necessidade de diálise.
O estudo FLOW, publicado no New England Journal of Medicine em 2024, foi o primeiro grande estudo desenhado especificamente para testar semaglutida em pessoas com diabetes e doença renal crônica já estabelecida. Com mais de 3.500 participantes acompanhados por 3,4 anos em média, o resultado foi uma redução de 24% no risco de progressão para insuficiência renal grave, necessidade de diálise ou morte cardiovascular.
GLP-1 melhora o acúmulo de gordura no fígado também em pessoas sem diabetes?
Sim, e aqui há uma novidade importante. O acúmulo de gordura no fígado não é exclusivo de quem tem diabetes, ele também afeta muitas pessoas com obesidade, triglicerídeos altos ou síndrome metabólica, mesmo sem nenhum diagnóstico de diabetes. Quando essa gordura no fígado gera inflamação, a condição pode evoluir para um estágio mais grave, com cicatrizes no órgão.
Um grande ensaio clínico publicado em abril de 2025 avaliou semaglutida em pessoas com essa forma inflamatória acúmulo de gordura no fígado, sendo que quase metade dos participantes não tinha diabetes. Os resultados foram expressivos: mais de 60% dos participantes tratados com semaglutida tiveram resolução da inflamação sem piora das cicatrizes no fígado, contra cerca de 34% no grupo que tomou placebo. Um terço dos tratados melhorou tanto a inflamação quanto as cicatrizes ao mesmo tempo.
GLP-1 e o peso: o que os estudos clínicos mostram sobre emagrecimento
O efeito dos medicamentos GLP-1 sobre o peso foi o que mais chamou a atenção nos últimos anos, e isso não aconteceu por acaso. A perda de peso associada a esses medicamentos foi comprovada em estudos e vai muito além de um efeito secundário do tratamento do diabetes.
Mas por que isso acontece?
Os GLP-1 atuam em áreas do cérebro relacionadas ao controle do apetite, ajudando a reduzir a sensação de fome e o chamado "ruído alimentar", aqueles pensamentos frequentes sobre comida ao longo do dia. Muitas pessoas relatam que passam a sentir menos urgência para comer entre as refeições e conseguem fazer escolhas alimentares de forma mais consciente, sem a sensação constante de privação.
Além disso, esses medicamentos retardam o esvaziamento do estômago, fazendo com que os alimentos permaneçam por mais tempo no sistema digestivo. Na prática, isso prolonga a sensação de saciedade após as refeições, ajudando a reduzir a quantidade de comida consumida ao longo do dia.
O resultado é uma combinação de fatores que favorece a perda de peso: menos fome, mais saciedade e menor impulso para comer por hábito, ansiedade ou desejo momentâneo. Por isso, os GLP-1 ajudam a criar condições que tornam mais fácil manter uma alimentação equilibrada e sustentar mudanças de hábitos ao longo do tempo.
O que os estudos mostram:
Para entender melhor o impacto desses medicamentos no peso, pesquisadores acompanharam milhares de pessoas com obesidade ou sobrepeso.
Um dos principais estudos (STEP 1), realizado com quase 2 mil adultos sem diabetes, mostrou que quem usou semaglutida perdeu, em média, 14,9% do peso corporal ao longo de 68 semanas. No grupo que não recebeu o medicamento, a perda média foi de 2,4%. Além disso, oito em cada dez participantes conseguiram reduzir pelo menos 5% do peso inicial.
Outro estudo (STEP 5), acompanhou os participantes por dois anos. Os resultados mostraram uma perda média de 15,2% do peso corporal entre aqueles que utilizaram semaglutida, enquanto o grupo placebo perdeu 2,6%.
Acompanhamento médico faz toda a diferença
Perder peso com medicamentos da classe GLP-1 exige indicação médica, receita e acompanhamento contínuo. Os estudos foram conduzidos sempre em conjunto com mudanças no estilo de vida, alimentação equilibrada e atividade física.
A obesidade é uma condição crônica e complexa, que geralmente requer acompanhamento contínuo. Por isso, o tratamento com GLP-1 deve ser encarado como parte de uma estratégia de cuidado a longo prazo. Interromper sem orientação médica pode levar à recuperação do peso perdido.
Quando procurar orientação médica ou farmacêutica?
Se você usa um medicamento da classe GLP-1, fique atento a estes sinais e procure atendimento imediato se apresentar:
- Dor forte na barriga que não passa, especialmente com mal-estar.
- Tremores, suor frio, fraqueza ou confusão mental: sinais de queda do açúcar, especialmente se você também usa insulina.
- Qualquer mudança na visão, especialmente se você já tem o olho diabético diagnosticado.
- Enjoos ou vômitos fortes que dificultam beber água ou comer.
Nunca pare o tratamento por conta própria. O consultório farmacêutico da Pague Menos pode te ajudar a entender o tratamento, verificar interações com outros medicamentos e tirar dúvidas sobre armazenamento e aplicação correta.

Perguntas frequentes
GLP-1 emagrece?
Esses medicamentos reduzem a fome e prolongam a saciedade, o que pode levar à perda de peso. Estudos clínicos mostraram redução média de cerca de 15% do peso corporal em pessoas com obesidade, sempre em conjunto com dieta e atividade física. O uso para emagrecimento exige indicação médica, receita e acompanhamento.
O benefício para o coração depende de quanto peso a pessoa perde?
Não. Os estudos mostraram que a proteção cardiovascular e renal ocorre mesmo em quem perde pouco peso. O coração se beneficia por mecanismos diretos desses medicamentos, além da perda de peso.
Pessoa com diabetes e doença nos rins pode usar?
Pode, sempre mediante avaliação médica. Estudos demonstraram redução de 24% no risco de progressão da doença renal em pessoas com diabetes e doença renal crônica estabelecida. A dose pode precisar de ajuste, conforme orientação profissional.
Preciso de receita para comprar?
Sim, sempre. A receita é obrigatória e fica retida na farmácia no momento da compra, conforme determinação da ANVISA.
Eles curam o diabetes tipo 2?
Não. Nenhum medicamento atual cura o diabetes tipo 2. Os GLP-1 controlam a doença, mas o tratamento precisa ser contínuo e acompanhado.
Referências Científicas
1. MARSO, S. P. et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with type 2 diabetes (SUSTAIN-6). New England Journal of Medicine, v. 375, n. 19, p. 1834–1844, 2016. doi: 10.1056/NEJMoa1607141
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3. PERKOVIC, V. et al. Effects of semaglutide on chronic kidney disease in patients with type 2 diabetes (FLOW). New England Journal of Medicine, v. 391, n. 2, p. 109–121, 2024. doi: 10.1056/NEJMoa2403347
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6. WILDING, J. P. H. et al. Once-weekly semaglutide in adults with overweight or obesity (STEP 1). New England Journal of Medicine, v. 384, n. 11, p. 989–1002, 2021. doi: 10.1056/NEJMoa2032183
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8. WILDING, J. P. H. et al. Weight regain and cardiometabolic effects after withdrawal of semaglutide: the STEP 1 trial extension. Diabetes, Obesity and Metabolism, v. 24, n. 8, p. 1553–1564, 2022. doi: 10.1111/dom.14725
Este artigo tem caráter informativo e educacional. As informações aqui contidas não substituem a consulta com médico ou farmacêutico. Sempre busque orientação profissional para diagnóstico, tratamento ou uso de medicamentos.